
Geava. Há tempos não geava. Era bonito ver os cedros se espreguiçando em dias assim. Ver o sol chegando para derreter aqueles lençóis de orvalho, a noite irreal, tão fria desfazendo-se como uma máscara de cera posta junto ao fogo.
Dieimes não percebeu o fogo nem o gelo. Dieimes resfolegava, pingando, quando a raiz de seus cabelos o chamou dolorosamente à realidade, mas ela não veio. Seu peito encontrou o asfalto e suas mãos cruzaram-se nas costas como se aquela coreografia tivesse sido ensaiada a sua vida inteira. Não relutou e nem abriu o bico. Seu corpo estava em outro lugar, no passado, quando foi levado. Era um clichê. A geada, o sol, o velho morto em seu pijama, as sirenes e aqueles homens truculentos. Era tudo noir demais, cinematográfico demais.
Na delegacia, Dieimes foi conduzido ao interrogatório. Havia café, cinzeiros, bolachas de sal. Os porquês foram feitos, fazia parte. Dieimes não se negou a nada, fez até questão. O plantonista ouviu sua história com algum enfado, como se lesse um processo e sempre o mesmo processo; mudavam os qualificativos, as vírgulas, mas a essência estava ali como uma impressão digital, uma mancha de sangue.
Os outros presos gostaram de Dieimes, mas tudo para ele continuava estranhamente repetido, ensaiado. Deram-lhe um cigarro. Ouviram sua história com certo respeito. A filha estava com a mulher, no pronto-socorro. Disseram-lhe que em seu lugar não teriam feito outra coisa, mas que ele não devia ter matado o velho tão rápido. Fizeram-lhe sugestões para uma próxima oportunidade.
Imitando um cenário, as paredes pareciam frágeis, quebradiças, isopor. Seus sapatos foram trocados por um pequeno polígono de cimento, um contorno impreciso e categórico da sua condição, do seu destino, que Dieimes acolheu com a resignação de quem sonha.
Os dedos dos pés encostados no piso frio o fizeram estremecer por um momento e Dieimes se sentiu arrepiado; mas seus pêlos eram rebeliões abstratas demais para acender uma revolução tão profunda em seu corpo. Logo se deixou arrastar pela letargia. Permaneceu ali escutando a conversa dos presos, revisitando os crimes que lia nas páginas policiais e que pululavam nos programas de televisão. Também tagarelavam sobre suas amantes, suas mulheres, mas as mulheres de que falavam eram absolutamente a mesma mulher desdobrada em mil versões de si mesma – um fantasma! – E isso era preciso. Era preciso idealizar, falsificar esperanças, alimentar um erotismo de fuga, um nexo para a liberdade; Era preciso contrabandear a vida que vinha de fora, mesmo quando a vida aqui fora contrabandeava a morte que crescia lá dentro.
Dieimes respirou com a máxima força dos seus pulmões e percebeu que a única coisa concreta naquela prisão era o cheiro; que o ar ali era denso, humano. Divertiu-se tentando identificar cada uma daquelas fragrâncias. A sudorese das axilas, o bolor violáceo que forrava os vãos, o sêmen incrustado nas mãos e a solidão patética que amolecia os testículos; a uréia volátil das latrinas, a violência heróica dos intestinos, a espuma dos sonhos, um pelotão de cheiros invadia os pulmões de Dieimes e Dieimes dilatava as narinas para sentir com mais intensidade o segredo de cada uma daquelas histórias, porque afinal, se a vida tinha cheiro era imperioso que ela existisse.
Mas, fruto de alguma conspiração onírica, superior a tudo, uma pedra zuniu no vento, como um projétil, e uma das janelas da delegacia se partiu – numa fração de segundo – em milhões de estilhaços iguais.
Começou um tumulto, um protesto, um motim. Urros selvagens de monstros selvagens alimentavam as pancadas nos portões, efluindo numa turba ignara, brutal, incontrolável.
Não. Não eram os presos.
A família do velho, revoltada, estava ali pra se vingar de Dieimes. Diziam que o velho era doente, que era bom, que era velho.
Em algum manual de direito deveriam escrever que a sociedade não passa de uma ostra estúpida, um molusco que ao invés de expelir o lixo que se acumula nas suas entranhas, transforma-o em pedra preciosa, numa bola brilhante e cheia de dor.
O plantonista tinha uma bolacha na boca quando tomou o primeiro tabefe. Sua autoridade voou com algumas migalhas e, em questão de segundos, aquele já não era o seu plantão.
Botas, foices, pedras.
Carregaram Dieimes para fora da delegacia.
Geava. Há tempos não geava. Era bonito ver os cedros se espreguiçando em dias assim. Ver o sol chegando para derreter aqueles lençóis de orvalho, a noite irreal, tão fria desfazendo-se como uma máscara de cera posta junto ao fogo.
Dieimes não percebeu o fogo nem o gelo. Dieimes resfolegava, pingando, quando a raiz de seus cabelos o chamou dolorosamente à realidade, mas ela não veio. Seu peito encontrou o asfalto e suas mãos cruzaram-se nas costas como se aquela coreografia tivesse sido ensaiada a sua vida inteira. Não relutou e nem abriu o bico. Seu corpo estava em outro lugar, no passado, quando foi levado. Era um clichê. A geada, o sol, o velho morto em seu pijama, as sirenes e aqueles homens truculentos. Era tudo noir demais, cinematográfico demais.