sexta-feira, 30 de outubro de 2009

editora cozinha experimental



Finalmente está sendo montada a Editora Cozinha Experimental, que a partir de 2010 começa a publicar livros de literatura encadernados artesanalmente, além de zines, camisetas com serifas e outros objetos de fetiche.

A oficina da editora já existe e se localiza na tradicional Rua Paissandu, bairro do Flamengo, cidade do Rio de Janeiro. O site está sendo construído, mas já foi disponibilizado um blog para que se engendre o diálogo com escritores e futuros leitores das publicações da cozinha: www.editoracozinhaexperimental.blogspot.com

Para entrar em contato com os editores, escrever para: cozinhaexperimental@hotmail.com

Um abraço fraterno,

m.r.mello



sexta-feira, 25 de setembro de 2009

breve discurso em defesa da indecência


nem no monástico silêncio dos cegos, nem no escuro
sonoro dos surdos há
mundos tão mudos
ou palavras tão plenas
de nada
e vazias
de sentido
como na língua lânguida&engalanada desses eruditozinhos
de beira de estrada
[ com sua voz sisuda e semi-tonada
pros nossos ouvidos-palatos
de alfa anal fabetos,

ex-
pulsos
como flátulos
do paraíso
poético

apenas porque o nosso corpo é mais protéico
do que o nosso espírito

(ou seria porque o nosso falo famélico
fecunda mais fêmeas que a sua filistéica fala?)

declaram que não
sabemos sânscrito nem lingala,
nem grego antigo nem alemão, vociferam
que a métrica
é mais importante que
o nosso tesão e

o dark, dark, dark. they all go into the dark.
até a joana dark
até o clark kent
até descartes
até a pop art é mais cult, oh my heart!

mas
um prepúcio vale mais que um precipício
um boquete vale mais do que um bouquet
mais valem duas vulvas voando que um verso na mão
uma suruba vale mais que mil palavras
e um poema, no mais das vezes
não vale nada

pois, senhores, o que gritamos é a vida
e não a regra
; nem a que se escreve
nem a que se caga.
– as palavras, senhores
são águias rapinas,
não trinos da moda;
e as rimas
[ mesmo as pobres, oh camões!
são ricas,
quando cantadas com a ponta
da pica,
na cadência bonita da
foda.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Tradução


No espasmo está a salvação
Cronwell Jara Jiménez
tradução: m.r.mello

No espasmo está a salvação,
a profecia do sem nome; o reino de ouro
do sádico e o soluço foi apenas
calúnia aleivosa.

No espasmo está a ousadia
daquele que transcende e segue rumo às muralhas,
o insone, a bruma do horror e esquecimento,
a graça de saber que no imperfeito
radica a chave, o grito de desterro e o decoro
como medida do infinito.

Está teu transparente fantasma, teu cofre de ouro,
teu frescor meditativo transgredindo globos e regras,
tua estadia ubíqua no inferno, tuas letais falácias,
teu ego espada no alto amontoando caveiras de ácido
e teu verbo fervente e de dolorosa diplomacia.

No espasmo está teu equilíbrio, ao vazio,
o sereno estertor de líquen e águas geométricas,
tua filosofia ferina e seu malogrado prestígio
sem trilhos nem caminho.

Tudo está aí como dado a partir de um reino remoto,
com galerias, barrancos e discretos labirintos;
De rábulas e repiques ao patíbulo e sua lâmina,
tudo aí, ao milímetro e ao inexorável, com batalhas
e cabalas e o louco furor dos naipes já jogados
com lágrima que ri em abandono e absurda desolação.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

lucidez e sombra


só na dor entendemos.
(carlos nejar)

exausto
de tanto ter
vontade
exausto
por quase ser
humano
por quase não
ser
exausto
do claustro
do silêncio
exausto
do canto
que desaprendeu
seu nascimento
exausto
do parto
exausto
até para o coito,
pasmem!,
exausto
sim
de sentir
a agressiva exaustão
do tempo
trotando
intransitivo
ultralá
do homem
exausto
não
dos problemas
das coisas
em si
mas das verdades
humanas
exausto
de escrever poemas
apenas
como testemunha
exausto
demais
para todas
as leis
( transcendentes
ou naturais )
exausto
de ir
de voltar
ao mesmo
entediante
inutilíssimo
lugar
de sempre
exausto
por não saber
mudar
quem
sou
exausto
de ser do mundo
ou de estar sendo
fora dele
a máquina
exausto
exausto
do novo
do antigo
do eterno
testamento
exausto
do espanto (
que não há )
e do sorriso
que há
mas que está
velho
exausto
por notar o brilho
e de não vê-lo
sob o ponto
de vista
da luz
exausto
da velocidade
da
veloz
idade
da
saudade
enquanto
corro
exausto
do verbo
morrer
verso
da vida
exausto
de tergiversar
o amor
amordaçando
o amar,
exausto
exausto
de abrir
e de calar
a boca.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

TRADUÇÃO



ELOGIOS A TEU CLITÓRIS PERFEITO
(Cronwell Jara Jiménez)


Nem os jasmins mais finos da rainha
da Inglaterra nem o santuário mais belo da Índia
ou da Indonésia tem os olores fragrantes, invictos,
como os encontro no templo de teu clitóris.

Palácio dos deuses do feliz Olimpo.
Ponto de ouro de vinte e cinco quilates finos.

Botão de rosa ainda em casulo,
mas com pensamentos perversos, únicos,
e vida e ares próprios de universo.

Esse é teu clitóris, mulher, teu clitóris.
E não te envergonhes; é o tesouro perfeito
com que te coroaram os deuses.

Se existe um ponto no céu
onde se ouvem as cítaras dos astros
e a música das constelações: é aí teu reino.

Simples e breve, e sensitivo até o delírio,
cabe aí o prodígio e o mais belo
do paraíso.

Sei que ama meu dedo inquisitivo,
minha língua de víbora, meu nariz de crocodilo
pronto para o agrado e o mordisco.

Sei que lhe apraz ser o tamborete,
a campainha viva que clama
e o rigor religioso, rito e coro
na pedra do sagrado sacrifício.

Sei que lhe apraz a saliva da minha garganta,
A dulcíssima sucção, o leve dente,
O suave belisco.

O circunlóquio da minha língua, a saliva dos meus lábios,
Meu suor, meu arquejo de homem ajoelhado
E vencido.

Sei que gosta de me fazer seu escravo,
Acorrentar-me a ele como fera faminta,
O pássaro que bebe orvalho.

Sei que todas as suas artimanhas e feitiços
De serpente buscam minha hipnose
Em roçadas e gozos, e roçadas perfeitas.

Torcendo minha língua de orquídea,
Embriagando-a em devaneios,
Afogando-a em ondas de méis e fogo e vida.

Sonhando o contato, o calafrio, o ingresso,
Com entrada e saídas vibrantes, estocadas
Breves, depois potentíssimas.
Chovam para ti estas loas
Corolas de lilás aturdidas,
Nêsperas carnívoras
Que são quase súplicas e badaladas
Ébrias
Para teu ventre disposto e teu ídolo.

Chovam para ti
este sax e trombone, com violino e teclado,
entrando e saindo de teu templo
como um gnomo alado,
com unhas,
rabo
de madrepérolas e delírio.

Olho do infinito, baba de vinho,
Bosque em incêndio.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Déjà Vu



Geava. Há tempos não geava. Era bonito ver os cedros se espreguiçando em dias assim. Ver o sol chegando para derreter aqueles lençóis de orvalho, a noite irreal, tão fria desfazendo-se como uma máscara de cera posta junto ao fogo.
Dieimes não percebeu o fogo nem o gelo. Dieimes resfolegava, pingando, quando a raiz de seus cabelos o chamou dolorosamente à realidade, mas ela não veio. Seu peito encontrou o asfalto e suas mãos cruzaram-se nas costas como se aquela coreografia tivesse sido ensaiada a sua vida inteira. Não relutou e nem abriu o bico. Seu corpo estava em outro lugar, no passado, quando foi levado. Era um clichê. A geada, o sol, o velho morto em seu pijama, as sirenes e aqueles homens truculentos. Era tudo noir demais, cinematográfico demais.
Na delegacia, Dieimes foi conduzido ao interrogatório. Havia café, cinzeiros, bolachas de sal. Os porquês foram feitos, fazia parte. Dieimes não se negou a nada, fez até questão. O plantonista ouviu sua história com algum enfado, como se lesse um processo e sempre o mesmo processo; mudavam os qualificativos, as vírgulas, mas a essência estava ali como uma impressão digital, uma mancha de sangue.
Os outros presos gostaram de Dieimes, mas tudo para ele continuava estranhamente repetido, ensaiado. Deram-lhe um cigarro. Ouviram sua história com certo respeito. A filha estava com a mulher, no pronto-socorro. Disseram-lhe que em seu lugar não teriam feito outra coisa, mas que ele não devia ter matado o velho tão rápido. Fizeram-lhe sugestões para uma próxima oportunidade.
Imitando um cenário, as paredes pareciam frágeis, quebradiças, isopor. Seus sapatos foram trocados por um pequeno polígono de cimento, um contorno impreciso e categórico da sua condição, do seu destino, que Dieimes acolheu com a resignação de quem sonha.
Os dedos dos pés encostados no piso frio o fizeram estremecer por um momento e Dieimes se sentiu arrepiado; mas seus pêlos eram rebeliões abstratas demais para acender uma revolução tão profunda em seu corpo. Logo se deixou arrastar pela letargia. Permaneceu ali escutando a conversa dos presos, revisitando os crimes que lia nas páginas policiais e que pululavam nos programas de televisão. Também tagarelavam sobre suas amantes, suas mulheres, mas as mulheres de que falavam eram absolutamente a mesma mulher desdobrada em mil versões de si mesma – um fantasma! – E isso era preciso. Era preciso idealizar, falsificar esperanças, alimentar um erotismo de fuga, um nexo para a liberdade; Era preciso contrabandear a vida que vinha de fora, mesmo quando a vida aqui fora contrabandeava a morte que crescia lá dentro.
Dieimes respirou com a máxima força dos seus pulmões e percebeu que a única coisa concreta naquela prisão era o cheiro; que o ar ali era denso, humano. Divertiu-se tentando identificar cada uma daquelas fragrâncias. A sudorese das axilas, o bolor violáceo que forrava os vãos, o sêmen incrustado nas mãos e a solidão patética que amolecia os testículos; a uréia volátil das latrinas, a violência heróica dos intestinos, a espuma dos sonhos, um pelotão de cheiros invadia os pulmões de Dieimes e Dieimes dilatava as narinas para sentir com mais intensidade o segredo de cada uma daquelas histórias, porque afinal, se a vida tinha cheiro era imperioso que ela existisse.
Mas, fruto de alguma conspiração onírica, superior a tudo, uma pedra zuniu no vento, como um projétil, e uma das janelas da delegacia se partiu – numa fração de segundo – em milhões de estilhaços iguais.
Começou um tumulto, um protesto, um motim. Urros selvagens de monstros selvagens alimentavam as pancadas nos portões, efluindo numa turba ignara, brutal, incontrolável.
Não. Não eram os presos.
A família do velho, revoltada, estava ali pra se vingar de Dieimes. Diziam que o velho era doente, que era bom, que era velho.
Em algum manual de direito deveriam escrever que a sociedade não passa de uma ostra estúpida, um molusco que ao invés de expelir o lixo que se acumula nas suas entranhas, transforma-o em pedra preciosa, numa bola brilhante e cheia de dor.
O plantonista tinha uma bolacha na boca quando tomou o primeiro tabefe. Sua autoridade voou com algumas migalhas e, em questão de segundos, aquele já não era o seu plantão.
Botas, foices, pedras.
Carregaram Dieimes para fora da delegacia.
Geava. Há tempos não geava. Era bonito ver os cedros se espreguiçando em dias assim. Ver o sol chegando para derreter aqueles lençóis de orvalho, a noite irreal, tão fria desfazendo-se como uma máscara de cera posta junto ao fogo.
Dieimes não percebeu o fogo nem o gelo. Dieimes resfolegava, pingando, quando a raiz de seus cabelos o chamou dolorosamente à realidade, mas ela não veio. Seu peito encontrou o asfalto e suas mãos cruzaram-se nas costas como se aquela coreografia tivesse sido ensaiada a sua vida inteira. Não relutou e nem abriu o bico. Seu corpo estava em outro lugar, no passado, quando foi levado. Era um clichê. A geada, o sol, o velho morto em seu pijama, as sirenes e aqueles homens truculentos. Era tudo noir demais, cinematográfico demais.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

desenho da mayla


Quem sou eu

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m.r.mello
poeta curitibano nascido no ano do rato, um dos autores do fanzine literário LÁ, editor da Cozinha Experimental (que está nascendo) e, circunstancialmente, professor de português, literatura e outras incomposturas.
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